A Grande Virada: por que a geração Z brasileira está bebendo menos álcool

O Brasil, historicamente conhecido por sua cultura de celebração e forte presença do álcool em eventos sociais, está testemunhando uma mudança de paradigma silenciosa, mas profunda: a diminuição de jovens que consomem bebida alcoólica no Brasil. 


Longe dos estereótipos de juventude festeira e desregrada, a Geração Z e os adolescentes brasileiros estão adotando um estilo de vida mais sóbrio, impulsionados por uma nova consciência sobre saúde mental, bem-estar físico e a influência das redes sociais.


Esta tendência não é apenas uma observação casual; ela é corroborada por dados estatísticos robustos de instituições de pesquisa e saúde pública. A queda no consumo de álcool entre os mais jovens representa um marco significativo na saúde pública nacional e lança novos desafios e oportunidades para a indústria de bebidas e para a sociedade como um todo.

O Retrato Estatístico da Abstinência Jovem: Dados que Confirmam a Tendência

A percepção de que os jovens estão bebendo menos é solidificada por levantamentos nacionais que monitoram o padrão de consumo de álcool ao longo dos anos. O Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA) e pesquisas como a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) do IBGE e o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD) mostram uma trajetória clara de declínio.

Um dos dados mais impactantes revela que a abstinência na faixa etária de 18 a 24 anos aumentou de 46% para impressionantes 64% em um período recente, segundo um levantamento de 2025. Isso significa que quase dois terços dos jovens adultos brasileiros optam por não consumir álcool.

A tendência de queda não se restringe apenas aos jovens adultos. Entre os adolescentes de 14 a 17 anos, o consumo tem diminuído de forma contínua desde 2006, apesar de ainda haver um percentual considerável que experimenta a bebida antes da maioridade.

A queda no consumo abusivo, que se refere ao padrão de ingestão excessiva em um único episódio, também é notável, caindo de quase 26% para 19% entre os jovens adultos em um período de dois anos. Esses números não apenas confirmam a diminuição de jovens que consomem bebida alcoólica no Brasil, mas também sinalizam uma mudança de comportamento em relação à intensidade do consumo.

As Múltiplas Causas da Sobriedade: Por Que os Jovens Estão Dizendo Não

A explicação para a diminuição de jovens que consomem bebida alcoólica no Brasil é multifatorial, abrangendo desde a busca por uma vida mais saudável até a pressão social exercida pelas mídias digitais.

1. O Fator Saúde e Bem-Estar

A Geração Z é, inegavelmente, a mais consciente sobre saúde e bem-estar de todas as gerações anteriores. Há uma valorização crescente da saúde mental e da performance física. O álcool é visto como um obstáculo direto a esses objetivos.

Performance: O consumo de álcool afeta negativamente o sono, a recuperação muscular e o desempenho cognitivo. Para uma geração focada em produtividade e self-improvement, a bebida se torna um custo alto demais.

Consciência Nutricional: O alto teor calórico e a falta de valor nutricional das bebidas alcoólicas também são fatores de desinteresse. Muitos jovens preferem evitar os efeitos físicos negativos, como a ressaca, que comprometem o dia seguinte.

2. A Cultura da Imagem e o Medo da "Ressaca Moral"

As redes sociais, embora frequentemente criticadas, desempenham um papel paradoxal nessa tendência. Em um mundo onde tudo é registrado e pode se tornar viral, o comportamento embriagado e descontrolado é um risco à reputação digital.

Ressaca Moral: Cerca de 30% dos jovens da Geração Z afirmam beber menos por medo da "ressaca moral", ou seja, o arrependimento e a ansiedade gerados por ações cometidas sob o efeito do álcool que podem ser registradas e expostas online.

Controle da Narrativa: A sobriedade permite que o jovem mantenha o controle total sobre sua imagem e sua narrativa pessoal, algo extremamente valorizado na era digital.

3. Falta de Interesse e Sabor

A razão mais simples, mas estatisticamente relevante, é a pura e simples falta de interesse. Em uma pesquisa, 58% dos jovens disseram que simplesmente não têm interesse em consumir álcool, e 34% afirmaram não gostar do sabor. Isso sugere que o álcool perdeu parte de seu apelo cultural como um rito de passagem obrigatório.

4. O Aumento da Ansiedade e a Busca por Mecanismos de Enfrentamento

Embora a ansiedade e a dificuldade em lidar com emoções possam levar alguns adolescentes à experimentação do álcool, a tendência geral é que a busca por terapia, meditação e mindfulness se torne o mecanismo de enfrentamento preferido. A conscientização sobre os riscos do álcool como "válvula de escape" tem crescido, impulsionada por campanhas de saúde mental e pela abertura do diálogo sobre o tema.

O Paradoxo do Consumo: Menos Bebem, Mas Bebem Mais

Apesar da diminuição de jovens que consomem bebida alcoólica no Brasil, é crucial analisar o cenário com nuance. A queda no número de bebedores não eliminou o problema do consumo excessivo.

O levantamento do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) de 2025, embora aponte a queda geral, alerta para o fato de que mais de um terço dos adultos pratica consumo pesado. Isso sugere uma polarização: a maioria está abstêmia ou bebe moderadamente, mas uma minoria significativa ainda se engaja em padrões de consumo de risco.

O Caso das Mulheres

Outro ponto de atenção é a mudança no padrão de consumo entre as mulheres. Enquanto a tendência geral é de queda, a proporção de mulheres que consomem álcool saltou de 31,2% em 2012 para um patamar mais alto em 2023.

Esse dado exige políticas públicas específicas, pois o consumo de álcool em mulheres está associado a riscos de saúde distintos e pode ser um indicador de estresse social ou emocional.

O Impacto Econômico e a Resposta da Indústria

A diminuição de jovens que consomem bebida alcoólica no Brasil está forçando a indústria de bebidas a se reinventar. O mercado de bebidas não alcoólicas e low-alcohol (baixo teor alcoólico) está em franca expansão, buscando atender a essa nova demanda por opções que se encaixem no estilo de vida mais saudável da Geração Z.

Bebidas No-Lo (No-Alcohol, Low-Alcohol): Marcas estão investindo em cervejas sem álcool, mocktails (coquetéis sem álcool) e spirits não alcoólicos que replicam a experiência social da bebida, mas sem os efeitos colaterais.

Marketing e Comunicação: As campanhas de marketing precisam se adaptar, focando menos na euforia e mais na celebração da conexão social e do sabor, desvinculando a bebida do conceito de diversão obrigatória.

O setor de soft drinks, energéticos e bebidas funcionais também se beneficia, posicionando-se como alternativas que promovem a energia e o foco, em vez do relaxamento ou desinibição.

Implicações para a Saúde Pública e o Futuro

A tendência de diminuição de jovens que consomem bebida alcoólica no Brasil é uma excelente notícia para a saúde pública. O consumo precoce de álcool está associado a uma série de problemas, incluindo:

Danos Cerebrais: O cérebro adolescente ainda está em desenvolvimento, e o álcool pode causar alterações neuroquímicas e estruturais permanentes.

Risco de Dependência: Quanto mais cedo o consumo começa, maior o risco de desenvolver dependência na vida adulta.

Comportamentos de Risco: O álcool está fortemente associado a acidentes de trânsito, violência e sexo desprotegido.

A redução do consumo entre os jovens pode levar a uma geração com melhor saúde mental, menor incidência de doenças crônicas relacionadas ao álcool e uma diminuição nos custos de saúde pública a longo prazo.

O Papel das Políticas Públicas

Apesar da tendência positiva, as políticas públicas devem ser mantidas e aprimoradas. A Lei Seca e as restrições à publicidade de bebidas alcoólicas são ferramentas cruciais que ajudam a moldar o ambiente social. É fundamental que o governo continue investindo em:

Educação Preventiva: Programas escolares que abordem os riscos do álcool de forma honesta e baseada em evidências.

Fiscalização: Reforçar a fiscalização da venda de bebidas alcoólicas para menores de 18 anos.

Acesso à Saúde Mental: Oferecer suporte psicológico para que os jovens possam lidar com a ansiedade e o estresse sem recorrer a substâncias.

Uma Geração Mais Consciente e Conectada

A diminuição de jovens que consomem bebida alcoólica no Brasil não é um modismo passageiro, mas sim um reflexo de uma geração mais consciente, informada e preocupada com o futuro. A Geração Z está redefinindo o que significa ser social, priorizando conexões autênticas e experiências que não dependam da alteração da consciência.

Essa virada cultural, impulsionada pela busca por bem-estar e pela transparência exigida pelo mundo digital, é um sinal de maturidade social. O Brasil tem a oportunidade de capitalizar essa tendência, investindo em infraestrutura de saúde, esporte e lazer que reforcem esse novo estilo de vida. O futuro da juventude brasileira parece ser mais sóbrio, mais saudável e, potencialmente, mais produtivo.

Matéria Produzida Por: Beatriz Senna.
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